O que fica quando as seguranças de fora caem


Na última aula da gītā, fechamos o ciclo de ensinamentos com uma fala de Arjuna que me remeteu uma experiência, onde ele disse: "nashto moha, a ilusão se desfez".
E o que isso quer dizer, na prática, é que ele se lembrou de quem realmente é. Não é uma informação nova que ele recebeu. É um esquecimento que se desfez. O famoso véu de maya que caiu.
E isso me levou há seis meses, quando decidi sair de um casamento de quase 10 anos, que parecia perfeito, sqn. Eu amava a pessoa, a relação era boa, e estar com ele me fazia sentir segura emocional, financeira e estruturalmente. Ele me "colocou numa redoma de vidro bem protegida", e como eu tenho uma forte necessidade por segurança, estar com ele preenchia esse pré requisito, mesmo eu sabendo que essa sensação de segurança era uma ilusão.
Minha mente repousava em paz, por um lado, mais por outro, gritava sem parar, porque havia questões claras na nossa relação, que apesar do amor, alimentava um conflito interno que só crescia dentro de mim.
Na ponta do lapís, sendo bastante racional, o saldo era para eu ficar no casamento. Mas o chamado interno foi mais forte, e mesmo contra a maioria de pontos a favor, soube que precisava seguir esse chamado, mesmo sabendo que ia balançar todos os meus pilares de segurança, principalmente o financeiro. Então confiei, abracei a coragem e segui com medo mesmo.
Isso é o que é: "karishye vachanam tava", fazer o que Íśvara pede através das situações da vida, não por obediência cega, mas por reconhecer o dharma, aquilo que deve ser feito por mim, mesmo quando não existe um certo e errado óbvio. Mesmo quando não há chão. Porque fé, essa fé onde há uma conexão que você sente e segue, é quando você bota os pés, para depois Deus colocar o chão. Atualmente me sinto mais segura, cuidando eu mesma dessa minha necessidade e estou mais em paz do que antes.
Recentemente resolvi testar algumas hipóteses, e refletir sobre outras. Imaginei ter todo o dinheiro do mundo, mas percebi que não me senti segura, pois ter todo o dinheiro do mundo, não impossibilita que eu deixe de tê-lo. Então não é isso que resolve.
Uma das razões que me motivaram a mudar da Grande São Paulo pro interior, foi em busca de mais segurança física, e apesar de me sentir bastante segura, ainda assim percebo que resta alguma insegurança, o que me mostrou uma coisa importante: não é mudando o cenário de fora que a questão se resolve. É olhando com realidade pra dentro, processando o que precisa ser processado, e aceitando o que simplesmente é, com a atitude interna correta, como meu professor ensina: "No olho do furacão, um passo de cada vez e atitude de oração."
Esse é o caminho do meio que a aula trouxe: ver a necessidade humana com realidade, sem fingir que ela não existe e sem esperar que o mundo a preencha por completo, porque nenhuma necessidade do ego se preenche de verdade lá fora.
E talvez seja por isso que a dificuldade nunca desapareceu de vez, mesmo estando nesse caminho. A vitória que a gītā descreve no final, onde há conhecimento e dharma há prosperidade, não é ausência de dificuldade. É mudar o olhar sobre nossos desafios. As dificuldades continuam vindo, muitas vezes ligadas ao que ainda é preciso curar, mas agora consigo olhar pra elas com mais clareza e objetividade, como oportunidade de resolver algo profundo. E reconhecer essa oportunidade dentro do desafio já é, em si, uma forma de prosperidade.
Estudar com o acarya Jonas Masetti e a proposta do Vedanta tem sido isso: um convite repetido a olhar pra dentro antes de sair procurando qualquer falta lá fora. Nashto moha não é uma frase bonita no final de um texto sagrado antigo. É o que acontece toda vez que me lembro de quem eu sou, e paro de precisar que algo fora confirme isso.
ॐ




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