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Ganapati Atharvashirsha Upanishad

Foto do escritor: Aline Mendonça
Aline Mendonça
9 de out.
4 min de leitura
Ganapati
Ganapati

Essa semana, meu professor Jonas Masetti me presenteou com a benção de poder ouvir novamente, o ensinamento apresentado pelo Ganapati Atharvashirsha Upanishad, agora num nível mais profundo, após o fim do aprofundamento e antes do início do Bṛhat Yātrā. 


E a primeira aula foi sobre os dois primeiros versos do śāntipāṭha, que é usado como invocação de abertura em vários textos sagrados, não apenas no Ganapati Atharvashirsha.


Há tempo quero aprender esse śāntipāṭha, porque ele também é o śāntipāṭha do Atharva Veda, onde, entre outros temas, o ayurveda, ciência médica milenar que estudo, vivo e atuo profissionalmente, se encontra.


Nessa transição do estudo, estou tendo a benção também, de ter uma aula com o professor e uma com a sua companheira, a Denise, que está conduzindo trabalhos emocionais integrativos ao conhecimento recebido.


Está sendo um profundo processo de integração, que iniciou ao final da Gītā, trazendo mais luz ao conhecimento recebido.


E a proposta dessa semana, é observar e recordar, situações da vida onde experimentei a resistência que o ego tem, em ver a realidade, que só passa a ser admitida, após a experiência ser vivida.


Antes de apresentar a reflexão, para contextualizar, segue o verso com uma tradução simples:


भ॒द्रं प॑श्येमा॒क्षभि॒र्यज॑त्राः।


Desfazendo o sandhi: भद्रम् । पश्येम । अक्षभिः । यजत्राः ।


  • bhadram — o que é auspicioso, propício, benéfico

  • paśyema — que possamos ver

  • akṣabhiḥ — com os olhos

  • yajatrāḥ — ó (vós) dignos de culto


"Que possamos ver com os olhos o que é auspicioso, ó (deuses) dignos de culto."


A prece pede uma qualidade da percepção. Não "que vejamos coisas boas" no sentido de sorte externa, mas que aquilo que os sentidos captam seja, bhadram — propício, favorável ao bem. É uma prece sobre a orientação dos próprios órgãos dos sentidos, nossos instrumentos de conhecimento, antes mesmo de qualquer conteúdo percebido.


Colocado como abertura de um texto dedicado a Gaṇapati, aquele que coloca e remove obstáculos, o sentido se aprofunda: pede-se que a própria faculdade da visão (e da audição) esteja livre de obstrução para "ver" Gaṇapati como Brahman.


Há aqui uma ressonância entre o pedido literal, "que vejamos com os olhos o que é bhadram", e o ensinamento mais sutil da Upaniṣad, que conduz a uma "visão" (darśana) de outra ordem, não pelos olhos físicos, mas pela apreciação do Sujeito.


Voltando à reflexão sobre a “resistência que o ego tem, em ver a realidade, que só passa a ser admitida, após a experiência ser vivida.”, eu posso afirmar que tenho muita propriedade para falar sobre o tema.


Não porque eu tenha gabaritado nesse ensinamento. Muito pelo contrário...


Eu passei, da metade para mais da minha vida, replicando comportamentos nocivos que vi nos meus pais e outras pessoas mais velhas, que eram referência para mim.


Desde que me entendo por gente eu ouço e vejo, os malefícios do tabagismo. Vejo isso em casa e no entanto, eu fui fumante de tabaco por mais da metade da minha vida. Não bastou eu ouvir sobre os malefícios do tabagismo, e ver esses malefícios na minha mãe. A ignorância é tanta, que eu precisei ver na pele.


Se eu soubesse esse mantra antes de fumar pela primeira vez, e tivesse o karma, muito provavelmente eu não teria sido fumante, porque eu teria sido abençoada com o intelecto afiado de Gaṇapati, que por ter ouvido e visto, contemplou a realidade da escolha, com toda a clareza necessária, para não replica-la.


Permita-me abrir um parênteses. Graças, li-te-ral-men-te, a benção divina, eu me libertei do tabagismo. Pedi para Gangā, em seu leito, e mergulhei 3 x seguidas em suas águas, para ser abençoada pela graça de não ter mais o desejo por fumar tabaco, e fui abençoada. E essa ficha, de fazer esse pedido, só caiu, quando eu finalmente vi, a realidade desse hábito. Ver no sentido de ter consciência.  


Mas isso é só um exemplo da minha ignorância. Quando eu estou com alguma questão, meus pensamentos costumam ir na direção de probabilidades ruins. Quando o outro tem alguma questão, eu fico bombardeando boas possibilidades. Só que nenhum desses dois cenários são reais. Tudo na vida tem qualidades que eu vou gostar e qualidades que eu vou fazer cara feia. Tudo na vida tem o lado bom e o lado ruim, que será diferente, a depender de diversos pontos de vista.


Olhar para a vida com a lente da realidade. Olhar para a vida, tal qual ela é, sem considerar as situações e pessoas, perfeitas ou imperfeitas. As pessoas são o que são. São baús de qualidades que vão se manifestando. As situações são apenas acontecimentos. Experiências que tem um começo, um meio e um fim. É só um trecho de uma extensa história, construída sobre bênçãos. Tudo são bênçãos colocadas em nossas vidas, para nos conduzir a auto realização.


Não olhar para a vida, por múltiplas perspectivas, é a mesma resistência, com uma roupagem diferente.


Que eu seja abençoada pela capacidade de ver a benção em todas as situações.


ॐ tat sat

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