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Bṛhat Yātrā —A Grande Jornada Continua

Foto do escritor: Aline Mendonça
Aline Mendonça
5 de out.
5 min de leitura

Atualizado: 9 de out.

ALINE EM PRECE
Do primeiro passo no estudo à bênção de chegar ao verso derradeiro da Gītā

Quem sou eu nesta caminhada


Me chamo Aline de Freitas Mendonça, tenho 51 anos (nasci em 1975), estou solteira, não tenho filhos, moro sozinha, tendo minha mãe como vizinha, em Miracatu/SP, numa esplendorosa reserva ambiental da mata Atlântica.


Escrevo esse texto transbordando gratidão pela benção de estar caminhando há mais de duas décadas, na tradição védica, em especial no Āyurveda e no Yoga, onde atuo profissionalmente, e em vedanta, onde concentro meu crescimento como indivíduo e minha busca espiritual.


Desde maio de 2018, quando dei meu primeiro passo formal no estudo do Vedanta, uma transformação silenciosa e profunda começou a acontecer. Não da forma dramática que às vezes imaginamos quando pensamos em "despertar" — mas da forma verdadeira, que é lenta, exigente e, ao mesmo tempo, extraordinariamente libertadora.


Participei de duas turmas regulares até que em abril de 2021, ingressei na fase de aprofundamento desse estudo, e no dia 9 de setembro de 2026, finalizamos o estudo da Bhagavad-Gītā.



Antes — quem eu era


Quando ingressei em Vedanta, eu já tinha encontrado o Yoga e o Āyurveda. Mas mesmo assim, ainda era uma pessoa bastante desajustada, desequilibrada. Era adicta de várias coisas. Altamente reativa. As pessoas tinham medo de mim.


Eu era agressiva, impulsiva e bastante equivocada em relação à vida e às situações, totalmente fora da caixinha. Qualquer um que chegasse para conversar comigo já percebia eu era grossa de cara. Tinha muita energia, muita praticidade, muita objetividade — mas isso tudo se misturava com muita dor e com a incapacidade de lidar com as pessoas, com os desafios da vida e com o medo. Medo de não ser aceita, de não ser amada, de não ser validada, de perder o emprego, de perder os "amigos", o namorado... Resumindo, eu tinha medo da vida, tal qual ela é. Me comunicava sempre na defensiva, com um fundo de "me aceite, por favor", e uma pitada de deselegância. O que fui aprender nomear com o professor Jonas Masetti depois, de raiva fora do lugar sabe? Pois é, eu tinha uma raiva fora do lugar, medo fora do lugar, várias emoções fora dos seus devidos lugares.


Briguei com a minha mãe e saí de casa com 16 anos. Dona da razão era o meu sobrenome. Aliás, eu facilmente brigava com todo mundo, e por isso, tive muitas perdas, algumas conhecidas, outras que só entendi depois. Não tive, até hoje, nenhum relacionamento amoroso harmonioso. E tenho algumas poucas, mais valiossímas pessoas que ainda fazem parte do meu vínculo hoje, que não sei como, porque eu mesma não seria minha amiga hoje, levando em consideração quem eu fui lá atrás.


Eu me considerava espiritualizada, no entanto, eu achava que espiritualidade era religiosidade. E assim, fui conhecendo e ficando um tempo, em que cada religião que sentia o chamado. O que por um lado foi muito bom pois, não tenho dificuldade nenhuma em me conectar com Deus, seja na igreja, no centro espírita, no terreiro, no templo hindu, na mesquita, na natureza ou no meu altar.



O que o estudo foi fazendo


Estudar Vedanta não é acumular informação filosófica. É ser confrontada, de forma metódica e amorosa, com a distância entre o que se pensa ser e o que se é. Essa distância, quando iluminada pelo ensinamento, pelo śabda pramāṇa, pela palavra do professor, começa a se fechar. Não por esforço, mas por compreensão.


Não teve uma ficha que caiu. Foram várias e várias fichas, vários insights, várias decisões tomadas às vezes dentro de uma aula, que mudaram drasticamente minha vida, porque contemplei o que estava sendo ensinado, a "ficha caiu" e a determinação da nova atitude interna se fazia presente: "Tá... É isso. A partir de agora é isso." E assim, degraus estão sendo subidos.


Depois — quem eu estou sendo


Eu não diria que hoje deixei de ter medo ou que deixei de ter raiva. Não. Mas hoje eu olho para essas emoções como objetos. Consigo vê-las, nomeá-las, e lidar com elas sem ser levada por elas.


Diante da raiva, por exemplo, eu não ajo mais, pelo menos não da forma que agia antes. Antes, eu agia sempre por impulso. Aliás, com raiva ou sem raiva. Hoje a raiva se tornou um propulsor. Um sinal de que há algo na minha vida que precisa ser apreciado e mudado. E as últimas grandes mudanças, que fiz nos últimos 5 anos, foram todas pela força da raiva. Mas não por impulso. A partir da raiva, introspectei para entender o conflito interno e meditei sobre alternativas.


Ainda tem coisa para soltar, para suavizar. A vida me testa diariamente, e eventualmente ainda dou uma de louca. Mas quando isso acontence, consigo rapidamente voltar para o eixo, e também não se compara com a louca de antes.


E o que percebo claramente é uma maturidade em relação às emoções, a essa personagem, ao mundo e à existência. Uma capacidade de olhar para tudo isso e quase sempre me manter inteira.


Chegar ao verso final da Gītā não foi um ponto de chegada. Foi, paradoxalmente, o começo de uma nova caminhada. Uma forma mais madura de continuar — não como estudante que ainda não aprendeu, mas como Bṛhat Yātri, a grande viajante, que carrega o ensinamento como provisão de caminho.



Saṁkalpa


E para esse novo ciclo que Īśvara me abençoa agora, meu saṁkalpa é:


"Que eu seja abençoada nesta nova fase que se abre agora, como Bṛhat Yātri, com todos os recursos internos e externos, para continuar estudando até que o conhecimento seja plenamente realizado.


Que as bênçãos de viveka, vairāgya shraddha e bhakti me permeiem e me guiem, e caso a vida ponha à prova o que aprendi, que eu lembre e aplique o ensinamento de Kṛṣṇa a Arjuna correspondente.


Que me mantendo em estado de presença e conexão, haja o alinhamento entre o pensamento, a fala e a ação, para que cada ação seja única e exclusivamente dhármica.


Que este corpo físico mantenha-se saudável e pleno de suas funções. Que haja agni suficiente para que o sistema digestório funcione integralmente, o intelecto seja afiado e que este corpo cultive flexibilidade, força, equilíbrio e mobilidade.


Que o pañcakarma de 20/10 a 09/11/2026 me purifique e liberte do desejo de: fumar (especialmente maconha), ingerir bebida alcoólica, ingerir açúcar, das vāsanās e dos saṃskāras negativos que ainda sustento. Que eu seja liberta de toda dependência, carência, culpa, senso de inadequação, da ideia e necessidade de perfeição, do padrão de julgamento e das máscaras que o ego insiste em vestir.


Que eu percorra este caminho, com a mente samatvam e saṃskṛtam, apreciando com prazer, alegria e suavidade essa jornada.


E caso um, alguns ou todos os pedidos não se materializem, que eu me desidentifique e me mantenha inteira, sensível, equilibrada e em santoṣa."


ॐ tat sat

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