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O instrumento que sou, quando paro de agir pra ser amada

  • Foto do escritor: Aline Mendonça
    Aline Mendonça
  • 25 de ago.
  • 3 min de leitura

Estudando os últimos versos do capítulo 18 da Bhagavad Gītā na turma Maitreyi, sob a condução do professor Jonas Masetti, me deparei com uma pergunta que não é só filosófica, é bem prática: o que significa, no dia a dia, manter Ishvara (Deus, Mãe Criadora, Criador, etc.) na mente?


Para mim, a resposta que ficou foi essa: manter uma atitude interna de oferecimento, entregando as ações que esse corpo e essa mente executam, e ao mesmo tempo contemplando que todo o universo é a própria expressão de Ishvara. Não é uma ideia abstrata guardada num canto da cabeça, é um jeito de me manter presente e conectada, em cada gesto.


Essa reflexão me levou direto pra um padrão que reconheço em mim há tempos. Percebo que durante quase toda a história dessa minha existência, fui movida a agir pra ser amada, valorizada, aceita, vista como incrível. Até um elogio simples, já foi capaz de me arrastar para esse lugar.


Atualmente, o que percebo que mudou com o estudo de Vedānta, é a velocidade com que a consciência chega. Quando esse movimento de buscar validação surge, hoje eu percebo quase que instantaneamente, e abandono. Quando recebo um elogio e penso "sou incrível", a mesma consciência aparece, me levando a agradecer a Ishvara, pelo bem feito, não a mim mesma. A ação continua sendo "minha", no sentido de que passa por mim, mas deixa de ser sobre mim.


Isso me fez pensar de um jeito diferente sobre a ideia de ser instrumento. Nem toda ação que parece destruição é errada, às vezes é justamente o papel de alguém, uma forma de instrumento também. O que separa uma destruição que serve ao dharma de uma destruição que só sustenta o ego não é a aparência do gesto, é a raiz dele. E o processo de yoga que cada um de nós faz, aos poucos, é exatamente o que vai purificando esse instrumento, até que a ação nasça cada vez menos do medo ou da dor, e cada vez mais de um lugar pleno.


Tem um verso, quase no fechamento desse capítulo que diz: ma shuchah, não se entristeça. Isso não significa negar o sofrimento nem fingir que ele não existe. É não aceitar o sofrimento como estado normal da vida, porque a fonte de paz não está lá fora, à espera de que o mundo me preencha. Eu me estabilizo primeiro em Ishvara, e só depois vou pro mundo, como alguém que tem paz pra oferecer, não como alguém que está mendigando um pouco dela.


E talvez seja esse o fio que amarra tudo: agir é inevitável, faz parte da minha natureza como ser humano, não existe a opção de simplesmente não agir. A liberdade não está em parar de agir, está em parar de atribuir à ação, ou ao resultado que eu desejo dela, a causa da minha felicidade. Mokṣa, pra mim, é exatamente esse reconhecimento, que eu sou Ishvara, que posso abandonar a autoria das minhas ações e me refugiar na minha verdadeira natureza, sem que isso me paralise diante da vida. Pelo contrário, é isso que me move.


Levo esse estudo comigo pra minha vida como terapeuta de Ayurveda e instrutora de yoga, onde lido o tempo todo com pessoas buscando, de um jeito ou de outro, alívio pro sofrimento. Cada vez que reconheço em mim esse impulso antigo de agir pra ser amada, e escolho oferecer a ação a algo maior, sinto que estou, aos poucos, deixando de ser um instrumento cego e me tornando um instrumento consciente. Esse caminho, que venho trilhando através de Vedanta, não promete que eu vou parar de errar. Promete que, quando eu errar, vou perceber mais rápido, e vou voltar mais rápido pra esse lugar de paz que já sou.


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