FUNDAMENTOS DO AYURVEDA — MALA: O QUE O CORPO PRECISA ELIMINAR PARA FUNCIONAR BEM


Fezes, urina e suor não são apenas descarte. No fundamento anterior, vimos que o koshtha é o espaço onde a digestão acontece. Agora chegou a hora de entender o que esse espaço precisa eliminar para continuar funcionando bem. Esse é o território do mala, os resíduos resultantes dos processos metabólicos do nosso corpo.
O que são os malas
O Ashtanga Hridayam afirma que três produtos de excreção são essenciais à fisiologia do corpo: purisha (fezes), mutra (urina) e sweda (suor), conhecidos juntos como trimala (Ashtanga Hridayam, Sutra Sthana 1.13). Repare na palavra usada pelo texto: essencial. Não lixo, não sujeira. Essencial.
Isso muda completamente a forma como sobre pensamos em eliminação. Não é algo que o corpo simplesmente descarta. É um processo tão regulado e importante quanto a digestão ou a formação dos tecidos.
Dois tipos de mala
O Charaka Samhita descreve os malas dentro da mesma lógica de formação dos dhatus, que vimos no fundamento anterior (Charaka Samhita, Sutra Sthana 28). Existem dois grupos:
Ahara mala, o resíduo da digestão do alimento. São as fezes e a urina, que é a sobra depois que o agni extrai do alimento, tudo o que pode ser aproveitado.
Dhatu mala, o resíduo da metabolização dos tecidos. O suor é o exemplo mais conhecido, formado como subproduto do metabolismo do meda dhatu, o tecido adiposo (Charaka Samhita, Chikitsa Sthana 15.18). Outros exemplos menos falados incluem unhas, cabelo e cera do ouvido, todos considerados dhatu mala de tecidos específicos.
Ou seja, cada dhatu que estudamos no fundamento 6 produz seu próprio resíduo. A cadeia de construção do corpo também é, ao mesmo tempo, uma cadeia de eliminação.
Por que eliminar bem, importa tanto quanto digerir bem
Os malas, em quantidade normal, mantêm o equilíbrio do corpo. É quando saem da faixa esperada, seja em excesso, seja em falta, que sinalizam desequilíbrio. Um aumento de purisha (fezes) gera desconforto abdominal, distensão, mau humor e menos clareza mental. Uma diminuição anormal também é sinal de alerta, não de "sucesso" em eliminar menos. O mesmo vale para mutra (urina) e sweda (suor): tanto o excesso quanto a ausência de suor, por exemplo, indicam algo fora do equilíbrio esperado para cada indivíduo.
Por isso, perguntar sobre hábito intestinal, urina e transpiração, deve fazer parte de toda consulta ayurvédica. Não é curiosidade. É informação básica para construção de diagnóstico.
O ensinamento dos vegas: não reprima os impulsos do corpo
Vega, em sânscrito, é o nome dado a um impulso natural do corpo, como a vontade de urinar, evacuar, espirrar ou bocejar. Aqui está um dos ensinamentos mais práticos do Charaka Samhita, e ao mesmo tempo, um dos mais negligenciados pela maioria das pessoas.
Há um capítulo inteiro dedicado aos impulsos naturais do corpo, tamanha é a importância desse aspecto fisiológico, para a manutenção da saúde: o Naveganadharaniya Adhyaya, que lista os vegas (impulsos) que nunca devem ser suprimidos, entre eles o impulso de urinar e o de evacuar (Charaka Samhita, Sutra Sthana, Capítulo 7). O texto é bastante elucidador sobre as consequências de repetidas supressões.
Suprimir repetidamente o impulso de evacuar causa distensão abdominal, dor, ruídos intestinais anormais e futuras desordens crônicas do sistema excretório,como por exemplo, constipação intestinal.
Suprimir o impulso de urinar causa dor na bexiga, dificuldade urinária, dor de cabeça e futuras patologias ligadas ao sistema urinário, como por exemplo, a "bexiga solta".
A supressão repetida de urinar e evacuar, causa movimento alterado do vata, que no longo prazo, causará patologias ligadas a desarmonia de vata, que vão além de patologias intestinais ou urinárias. As doenças de vata comumente são doenças degenerativas do sistema nervoso central.
Quantas vezes, na história da sua existência, você já adiou ir ao banheiro porque estava em reunião, no trânsito, ou ocupada demais? Imagino que incontáveis vezes. O Ayurveda já sinalizava, há séculos, que isso tem consequência fisiológica real, com alto custo futuro.
Patologias não nascem da noite para o dia. Na maior parte dos casos, elas são construídas por repetidas más escolhas, que somadas, resultam em doenças crônicas.
A camada sutil: nem todo impulso deve ser contido, e nem todo impulso deve ser solto
Aqui o Charaka Samhita oferece uma distinção sofisticada, que o Dr. David Frawley ajuda a traduzir para o plano psicológico. O mesmo capítulo que ensina a nunca suprimir certos vegas físicos (os chamados adharaniya vega, "impulsos que não devem ser contidos") também lista impulsos que devem sim, ser contidos: falar com dureza excessiva, mentir, fofocar, usar palavras no momento errado. São os dharaniya vega, "impulsos que devem ser contidos", os que pedem discernimento antes de agir.
Frawley trabalha essa mesma lógica na dimensão emocional: reprimir uma emoção genuína que precisa ser processada, como um luto, adoece, exatamente como reter fezes ou urina adoece o corpo. Mas agir por impulso em cada onda de raiva ou cada palavra ríspida que surge também adoece, só que de outra forma. A sabedoria não está em nunca se conter, nem em sempre se conter. Está em saber distinguir qual impulso é fisiológico e precisa de saída, e qual impulso é reativo e precisa de discernimento.
Três formas de cuidar dos seus malas
Não adie o banheiro por produtividade ou qualquer outro motivo. Indo direto ao ponto: atender ao impulso de urinar e evacuar assim que ele surge é, segundo o Charaka Samhita, uma questão de saúde, não de educação ou etiqueta.
Observe seus malas como um termômetro semanal. Consistência das fezes, cor da urina, presença normal de suor durante atividade física. Mudanças persistentes nesses três sinais merecem atenção antes de virarem sintoma maior. Aliás, a auto observação geral, é fundamental para não permitimos nenhum sintoma escalonar e ganhar força. Essa atitude interna, é autocuidado, é meditação ativa, é responsabilidade com a manutenção da saúde.
Pratique a distinção entre os dois tipos de impulso. Antes de engolir uma necessidade física real, pergunte se ela é fisiológica, então deixe sair; ou reativa, e então respire um instante antes de agir. Essa pausa de discernimento é, em si, uma prática ayurvédica.
Uma ideia para carregar com você
"Purisha (fezes), mutra (urina) e sweda (suor), são essenciais à fisiologia do corpo." — síntese do ensinamento sobre os malas, Ashtanga Hridayam, Sutra Sthana 1.13
O que vem a seguir
Se já vimos os elementos, os doshas, sua natureza, seu fogo, seus resíduos, seus tecidos e seu espaço de eliminação, falta entender como tudo isso se relaciona com aquilo que você coloca para dentro todos os dias: o alimento, e as qualidades que ele carrega. É o nosso próximo fundamento: Rasa, Guna, Virya, Vipaka e Prabhava.
ॐ




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