O que a lua me ensina, sobre agir sem me prender ao resultado
- Aline Mendonça

- 25 de ago.
- 3 min de leitura

Faz tempo que acompanho o movimento da lua como uma das bússolas da minha rotina, junto com outros ciclos astronômicos que uso pra me situar no tempo. Não é superstição, é uma forma de me sintonizar com as energias disponíveis em cada momento e perceber o quanto estou alinhada com o cosmo. Foi com esse olhar que cheguei a uma aula de Vedanta sobre chaturti, o quarto dia da lua, dedicado a Ganesha.
Descobri ali uma distinção que não conhecia: na lua crescente, o shukla caturthi é o dia de pedir crescimento. Na lua minguante, o sankatahara é o dia de pedir a eliminação de obstáculos. Duas energias, dois propósitos, dentro do mesmo ciclo que eu já observava. Fez sentido imediato pra mim, porque como terapeuta Ayurveda e instrutora de Yoga, trabalho o tempo todo com a ideia de que existe um tempo certo pra cada coisa, um ritmo que não é arbitrário.
Mas o que mais me tocou nessa aula não foi o calendário lunar em si. Foi a pergunta que ele abriu: se devemos ter objetividade e aceitar que o corpo é impermanente, por que fazer ritual, tapas, tratamento, em vez de simplesmente aceitar o que vem? A resposta que fui construindo é que não devemos esperar um resultado específico das nossas ações, mas isso não significa parar de agir. Nesse caso, significa fazer todas as ações adequadas à manutenção da vida. Existe uma diferença enorme entre aceitação e resignação passiva. Aceitação é fazer a ação que cabe a mim, dar o meu melhor, e entregar o resultado a Ishvara. Resignação é não agir.
Essa distinção me ajudou a entender algo que já vivo na prática, mas nunca tinha organizado em palavras: ritual e tapas atuam nos campos mental e espiritual, e esses campos vêm antes do plano físico. Agir sobre eles não é ignorar o corpo, é trabalhar numa camada que sustenta o corpo. Já passei por momentos difíceis, de doença, perda, crise, em que só cuidar da situação externa não bastava. Foi recorrendo às ferramentas do yoga, do Ayurveda, do próprio Vedanta e, quando fez sentido, também à terapia, que consegui atravessar esses momentos de um jeito mais inteiro. Hoje entendo melhor por que isso funciona: porque a mente e o espírito pedem um tratamento diferente do corpo, e os três estão conectados numa hierarquia de causas, não numa disputa de qual é mais real.
O que fica dessa aula pra mim, é uma confirmação de algo que já intuía observando a lua: nada acontece fora de tempo, e agir dentro do tempo certo, com presença e sem apego ao resultado, é minha parte no processo. O resto eu entrego. Essa entrega não é passividade, é confiança.
E percebi também algo sobre o próprio estudo. Nas últimas semanas, saber que eu ia refletir sobre a aula logo depois de assisti-la mudou o jeito como eu assisto. Trouxe mais presença e mais foco, duas coisas que andavam difíceis pra mim ultimamente. Às vezes a disciplina que a gente busca no plano espiritual começa por um detalhe simples assim, saber que vem uma conversa depois, e isso já muda a qualidade da escuta.
Sigo estudando com a turma Maitreyi, sob a condução do acarya Jonas Masetti, trazendo pra minha rotina de terapeuta e instrutora de yoga essa mesma lógica que a lua sempre me ensinou: agir no tempo certo, com o cuidado que cabe a mim, e confiar o resto ao que está além do meu controle.
ॐ


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