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FUNDAMENTOS DO AYURVEDA — DHATU: OS TECIDOS QUE CONSTROEM VOCÊ

  • Foto do escritor: Aline Mendonça
    Aline Mendonça
  • há 22 minutos
  • 4 min de leitura
Entenda a Racionalidade Ayurveda | 6: Os 7 Tecidos que Sustentam o Corpo
Entenda a Racionalidade Ayurveda | 6: Os 7 Tecidos que Sustentam o Corpo

Se o ama é o que sobra quando a digestão é incompleta, este fundamento mostra o outro lado da moeda. Quando o agni funciona total e plenamente, o alimento não vira resíduo. Ele se transforma, em etapas sucessivas, em você mesmo. Nesse processo nascem os dhatus, os sete tecidos que constroem e sustentam o corpo, que juntos, formam a estrutura física completa do corpo.


O que são os dhatus

Dhatu significa, literalmente, aquilo que sustenta, que dá suporte. E eles são sete:

  1. Rasa (plasma e fluidos nutritivos);

  2. Rakta (sangue);

  3. Mamsa (músculo);

  4. Meda (tecido adiposo);

  5. Asthi (osso);

  6. Majja (medula);

  7. Shukra (tecido reprodutivo).


O Ashtanga Hridayam descreve a função específica de cada um: rasa nutre, rakta sustenta as funções vitais, mamsa envolve e recobre, meda lubrifica, asthi sustenta o corpo e dá sua estrutura, majja preenche o interior dos ossos e shukra permite a concepção (Ashtanga Hridayam, Sutra Sthana, Capítulo 11, verso 4).


Não é uma lista aleatória. É uma sequência de funções que juntas, permitem que o corpo exista como uma unidade coerente.


A lógica da nutrição sequencial

Aqui está o ponto mais elegante da fisiologia ayurvédica. Os dhatus não se formam em paralelo. Eles se formam em cadeia. O Charaka Samhita descreve essa sequência com precisão: do rasa nasce o rakta, do rakta nasce o mamsa, do mamsa nasce o meda, do meda nasce o asthi, do asthi nasce o majja e do majja nasce o shukra. (Charaka Samhita, Sutra Sthana 28.4).


Pense numa plantação irrigada por um único canal de água, que passa primeiro por um campo, depois por outro, depois por outro, até o último. Se a água que entra já vem contaminada, todos os campos rio abaixo sofrem as consequências. Se o primeiro campo está seco, o último também vai secar. É exatamente assim que os dhatus funcionam: cada um depende da qualidade do anterior.


Uma alimentação pobre não afeta só o rasa dhatu, afeta toda a cadeia até chegar no shukra, o último e mais refinado dos sete.


Cada dhatu, além disso, tem seu próprio fogo digestivo, chamado dhatu agni, responsável por extrair do dhatu anterior exatamente o que é necessário para formar o próximo. Por isso, fortalecer o agni central (o jatharagni, que vimos no fundamento 4: Agni) impacta positivamente toda essa cadeia.


O oitavo elemento: Ojas

Quando os sete dhatus estão bem nutridos e em equilíbrio, produzem uma essência sutil chamada ojas, considerada por muitos estudiosos um oitavo dhatu, superior aos demais.


Ojas é frequentemente descrito como a essência da imunidade, do brilho, da vitalidade e da resistência do corpo.


É por isso que uma pessoa com os dhatus bem nutridos costuma ter pele com viço, olhos claros, energia estável e resistência a doenças, enquanto alguém com dhatus depletados, aparenta cansaço mesmo sem causa aparente.


O que acontece quando um dhatu se desequilibra

Assim como os doshas, os dhatus também podem estar em excesso (vriddhi) ou em falta (kshaya), e cada estado tem sinais próprios. Alguns exemplos, segundo o Ashtanga Hridayam:

  • a falta de rasa dhatu causa ressecamento, fadiga e intolerância a ruídos;

  • a falta de rakta gera desejo por sabores ácidos e frios;

  • a falta de mamsa enfraquece os órgãos dos sentidos e emagrece a região dos glúteos e bochechas;

  • a falta de asthi provoca dor nas articulações e queda de dentes, cabelo e unhas;

  • a falta de majja causa tontura e sensação de vazio interno

(Ashtanga Hridayam, Sutra Sthana, Capítulo 11).


Reconhecer esses sinais é, na prática, uma forma de mapear qual tecido precisa de mais atenção e nutri-lo desde o início da cadeia.


A camada sutil: ojas também é uma qualidade da mente

O Dr. David Frawley amplia o conceito de ojas para além do corpo físico. Ojas é também a reserva de estabilidade emocional e resiliência psicológica de uma pessoa. Alguém com ojas forte tende a atravessar dificuldades com mais equilíbrio, dorme melhor, se recupera mais rápido do estresse. Alguém com ojas depletado, por outro lado, tende a se sentir mais vulnerável emocionalmente, mais reativo, mais facilmente esgotado por situações do dia a dia. Cuidar dos dhatus, nesse sentido, é também cuidar da sua capacidade de sustentar a própria estabilidade emocional ao longo da vida.


Três formas de nutrir seus dhatus

  1. Priorize alimentos de verdade, bem preparados. Já que tudo começa no rasa dhatu, alimentos frescos, nutritivos e bem digeridos são o ponto de partida de toda a cadeia. Comida ultraprocessada destrói tecidos e nubla dua mente.

  2. Respeite o descanso como parte da construção do corpo. É durante o sono que boa parte da reconstrução tecidual acontece. Dormir após ás 21h e noites mal dormidas de forma repetida, comprometem a formação de todos os dhatus, um por um.

  3. Evite o excesso de práticas que depletam. Jejuns muito prolongados, exercício físico em excesso, restrição alimentar extrema, por exemplo, podem esgotar os dhatus mais rápido do que o corpo consegue repor. Equilíbrio entre leveza (langhana) e nutrição (brimhana) é a chave.


Uma ideia para carregar com você:

"Do rasa nasce o rakta, do rakta o mamsa, do mamsa o meda, do meda o asthi, do asthi o majja, e do majja o shukra." — Charaka Samhita, Sutra Sthana 28.4

O que vem a seguir

Se os dhatus são o que o corpo constrói, o próximo fundamento fala do espaço onde tudo isso acontece: as cavidades internas do corpo, responsáveis por abrigar órgãos, processar alimento e permitir que toda essa cadeia de transformação tenha, literalmente, onde acontecer. É o nosso próximo fundamento: o Koshtha.


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